Mulher-tudo.

Raramente ele se atrasava. Ela também. Não havia trânsito, chuva, greve de ônibus, nada. Dezoito horas e quarenta e cinco minutos estava em casa. Mesa pronta e caprichada; toalha xadrez azul – uma toalha de tecido.

Copos simples, aqueles americanos mas sempre muito bem lavados. Os pratos de Marinex azul-bic virados de boca para baixo; um par, cada um de um lado da mesa com um guardanapo de papel toalha dobrado em triangulo e os talheres, aqueles de cabo branco de plástico, ladeando o prato.

Na mesa ainda tinha paliteiro de pinguim e saleiro “cisne”, um vidro de maionese Helmanns donde se viam algumas sementes continha uma pimenta feita em casa. Sobre o pote, uma pedaço de papel alumínio cobria e nela repousava uma colher fina e comprida, parecida com aquelas que se utilizam para os copos de suco.  Uma lata de azeite “Maria” e, a complementar, um farinheiro de madeira clara com manchas escuras naturais e outras provenientes de seu uso e que dentro havia, também, uma colher só que de madeira e farinha de rosca devidamente elaborada com o esfarelado de pão francês temperado com pedacinhos de manjericão fresco. Receita de família.

Os móveis da cozinha eram de aço. Móveis vermelhos com puxadores cromados. O fogão antigo tinha asas e sobre suas grelhas haviam umas panelas, uma delas, prateada, já um tanto quanto manchada de preto e com marcas de amassado. Dela exalava um aroma característico de frango temperado com alho, cebola e vinagre, cujo preparo já havia iniciado. Na outra panela um pouco menor, arroz já lavado esperando para ser mexido no ponto de fritura. Em poucos instantes, os aromas se misturam pois começam a exalar aquele cheiro de cebola fritando e aquele barulho característico.

Eis que, um barulho da porta da rua se abrindo quebra toda a sinfonia da cozinha. Em seguida, um outro de chave sendo guardada no porta-chaves, e passos em direção da mulher. Aquele beijo estalado e logo mais um barulho característico da abertura de porta do quarto seguido de molas da cama. Algo ritmado nos barulhos, talvez indicando que estava tirando a bota, o sapato ou as meias, algo assim.

Outro barulho de cama demonstra que se levantou. Porta do banheiro se abrindo e fechando, barulho de porta de box , um guinchado de torneira sendo aberta e depois de água, chuá, era o chuveiro.

Na cozinha o arroz borbulhava e nele estava se colocando a última conta de água que iria secar. Um colher se põe se banha no caldo do arroz, é assoprado e colocado cuidadosamente na boca para testar o sal. A outra panela, o frango já no ponto de dourado, inicia aquele processo de fritura, donde os pedacinhos vão grudando no fundo e é importante ficar mexendo constantemente. Ela levanta, vai ao banheiro, recolhe a toalha, a cueca e providencia-as nos devidos lugares.

Ele aproxima-se da mesa, senta-se, estava de pijama, cheiro de boa colônia. Conversa qualquer coisa. Vira o prato de cabeça para cima e aguarda ser servido. A mulher coloca o arroz, com a colher, amassando-o, ocupando todo o prato. Pega a panela de frango: uma coxa, uma sobre coxa e um pedaço pequeno de peito. Um pouco de molho do frango sobre o arroz. Ele providencia a pimenta, farinha, azeite. Ela monta o seu prato e come devagar, quase sem fome.

Ele come, lenta e elegantemente, pegando os talheres e deixando o dedo mindinho de fora. Termina o prato e ainda se esforça para caçar o último grão de arroz, forçando o garfo sobre o mesmo. Limpa os lábios com o guardanapo que está ao lado. Pega o palito, coloca na boca e segue o ritual de passar a madeirinha entre os dentes, mordendo de vez em quando.

Nada de café. Uma espera silenciosa e a esposa tira o prato, deixando no lugar pouca coisa. Talvez fazendo companhia para aquele homem que, em seguida, levanta-se e vai até a sala, em seu lugar predileto, assistir a TV.

Ele não percebe que em seu pijama repousa uns grãos de arroz e uma mancha de pimenta que será lavada no dia seguinte. Ele ajeita as almofadas, senta, pega o controle remoto, liga, ajusta o canal, prega o olho na tela por cinco ou talvez dez minutos e chega o sono; um cochilo.

A mulher se aproxima da sala depois de desfazer-se da louça, da mesa e das coisas de mulher, de mãe, de dona-de-casa, de esposa.

Senta na sala, acompanha a TV em sua novela predileta, enquanto o homem ronca.

Logo mais a novela acaba e ambos vão para o quarto.

Definitivamente, a rotina existe mas a mulher é tudo.

Parabéns a você, mulher-tudo.

 

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2 opiniões sobre “Mulher-tudo.”

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