Uma mentira sem tragédia

Dois casais seguiam por uma estrada. Estavam em suas motocicletas curtindo um dia de inverno daqueles que alternam  garoa e um pouco de frio.  Felizes, voltavam de um passeio não muito distante de seus lares. Já beirando o início de tarde, rasgando o asfalto em uma região de serra; precisamente a serra do mar, às vezes um pequeno congestionamento mas boa visibilidade, numa estrada sinuosa.

Bateu. Isso, bateu uma fome daquelas e o grupo preferiu parar num restaurante.

 

O texto parece um roteiro de novela. Diria que um script que poderia anunciar uma tragédia ou uma narrativa de suspense associado a um pouco de humor.
 

É uma história simples. Uma história comum que tem o seu cerne o tempo.

Mas, pensando bem, que história não é emoldurada pelo tempo? Que história não tem um encaixe em um tempo, um momento? Este tempo, este momento que sempre ousamos em brincar com ele. Às vezes tentando encaixar nossas melhores expectativas. Queremos que ele seja aproveitado à plenitude moldando-se às nossas necessidades pessoais. Queremos que ele seja acelerado quando estamos à espera de alguém. Desejamos que ele caminhe lentamente quando estamos sentido-nos repletos de felicidade. Pedimos que ele volta quando algo de ruim acontece.

Nós queremos que o tempo seja o nosso comandado. Mas Ele. Sim Ele é implacável.

Queria essa história tivesse outro rumo, mas, o tempo quis que ele fosse assim. Relutei  em escrever esse texto até entender o que realmente aconteceu.

 

Falo, em continuação, dos casais motociclistas, que pararam num restaurante para almoçar. Uma almoço tarde, mas providencial, bem-humorado. Regado a um bom papo, boa escolha do cardápio e nenhum retoque no atendimento.  A sobremesa, o café, a conta e, hora de ir embora.

Ao caminharem em direção ao local onde estavam estacionadas suas motocicletas, pensaram na possiblidade de fotografar aquele momento. Coisa à toa; uma foto para mostrar que ali estavam em frente a um restaurante de beira de estrada.

No mesmo instante, aproximou-se uma família que havia saído do referido restaurante. Dois meninos já moços, uma moça e uma senhora lá com seus 40 e poucos.

Um dos motociclistas pediu para que uma daquelas pessoas tirassem a foto, entregando o telefone celular àquele, que parecia se o mais jovem. Prontamente atendido, a foto foi tirada e, a surpresa veio em seguida: a mulher, que parecia ser a mãe daquele grupo, iniciou um diálogo com os casais:

–       Vocês viajam muito de moto?

Um dos casais disse que “não muito” e  apontou para o outro casal, complementando a resposta e dizendo “- eles viajavam mais”. Em seguida, a mulher soltou a seguinte frase, com um olhar triste, marejado e de forma pausada e sobretudo trêmula:

–       Meu marido também gostava de andar de moto. Viajávamos juntos.

Sem ação, os casais abaixaram a cabeça e pensaram numa resposta. No que dizer naquele momento e ela, complementou:

–       Aproveitem…

Muitas lições podem ser tiradas desta história. A principal é a de valorizar o nosso tempo. A importância de curtir cada momento como se fosse o último.

 

Mas, o maior aprendizado que tive foi o exercício de contar uma história verídica como se tivesse acontecido com outra pessoa.

Não comigo.

 

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