Não sabia que era tão bom

Zapeando os canais na TV aberta, me deparei com uma entrevista e não lembro bem em que emissora era mas, era um programa típico de literatura em que o escritor falava um pouco de sua vida. Num determinado momento, o entrevistado soltou uma frase que me chamou muito a atenção a ponto de ficar martelando em minha cabeça por vários dias. Diria, martela até agora e pretendo me livrar ao escrever esse texto.

Ele disse que  quando dava aula “se sentia sugado pela obrigação e não conseguia escrever nada” e arrematou “era problema com nota, com falta, com aluno…”. Será que eu também sou assim? Juro que não.

A cada virada de semestre, exercito minha capacidade de despedir-me daquelas turmas das quais criamos uma grande sinergia em aula afinal, só é possível conduzir uma troca positiva de conhecimento se houver um bom ambiente e isso, como muita gente sabe, não acontece no primeiro instante.

Mas, faço sempre uma alusão a um trem que tem que ir para outra estação, isto é, os alunos precisam se encontrar com outros professores, outras experiências e seguir seu destino. Nós, professores, ficamos na estação a esperar pelo próximo trem e seus passageiros que descem, e com isso orientamos naquela parada.

Tem gente, no final do curso, que nos cumprimenta entusiasticamente em público, que faz discurso, que monta filme, dá presente. Alguns deixam bilhetem; outros apenas viram as costas; dão um tchau, e também gente que sai calado. Respeito todos!

Mas, uma coisa que me chamou muito a atenção foi a atitude de um aluno nestes últimos dias. Ele era um aluno comum, nada demais. Participativo, pontual, cordial, educado, um bom menino e, seguramente, um bom profissional no futuro, assim considerando que deva ser um bom filho, até porque, não existe uma forma de desmontar o ser humano e dizer que ele é de uma maneira em casa e na vida escolar, de outra.

Aproximava-se do final da aula e, os alunos começaram a se despedir uns dos outros e em seguida passar por mim trocando abraços, apertos de mão e frases ao acaso. Ele, pude perceber, ficou na sua cadeira. É daqueles alunos que não sentam  nem na frente, nem nos fundos, mas bem no meio da sala, à vista do professor. Ele esperou todos os alunos saírem e tranquilamente se dirigiu a mim que estava sentado com algum afazer, não lembro bem o que me mantinha compenetrado mas ele me disse “ – professor eu queria muito agradecer o senhor”. Eu respondi – obrigado, imagina, nem precisa, nos vamos nos encontrar por aí.  E ele não se conteve e disse: Meu caro professor, eu aprendi muito neste semestre com o senhor. E não foi só em relação à sua matéria, mas sim em principalmente em relação à vida e ao comportamento em sala de aula”. Até aí, tudo bem.  Em seguida ele deu um passo para trás, esticou o braço direito buscando me cumprimentar e eu imediatamente retribui o gesto. Em seguida, ele colocou-se em posição de “sentido”, com pernas fechadas e braços ao lado do corpo e curvou o corpo em forma de reverência, seguida de um muito efusivo “muito obrigado”,  um gesto de cabeça e um largo e sincero sorriso.

Fiquei atônito.

Tem coisas em nossa vida que podemos pedir e receber. Há outras, entretanto, que podemos até pedir, mas nunca receberemos. Por último, haverão coisas boas em nossas vidas que ganharemos sem pedir.

Ganhei.

 

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