Não. Não quero falar

Não quero falar de morte, de tragédia, de queimados, de mutilados.
Não busco falar de presos, de culpados, de sobreviventes, de doentes.
Não me presto em falar das várias famílias ceifadas do sonho de presenciar o futuro de sua prole.
Não falarei de coisas ruins, de tristeza, de melancolia, de perturbação.
Não me é permitido evocar os Deuses, provocar os Santos ou perguntar aos Orixás o porquê de tanta dor.
Não buscarei explicações, soluções, entendimentos ou justificativas à falta de sensibilidade dos gestores do negócio que abrigou cenas de horrores.
Não faria alusões, ilações, deduções ou recomendações sob qualquer ponto de vista além do já explorado à exaustão pela imprensa.
Não partiria de mim qualquer iniciativa em lembrar, requentar, narrar, rememorar qualquer coisa que diga respeito à tragédia.
Não quero, não ouso, não faço porque eu vivo um pouco de tudo isso.
Fui jovem e agora sou pai. Sou professor como muitos que olham diariamente nos olhos destes meninos e meninas e ali enxergam vidas pulsantes e não fragmentos de uma fumaça repugnantemente mortal.
Enfim, eu não quero mais falar, ouvir, porque não se trata de encontrar respostas para o que é justo ou injusto.
Não há que se encontrar palavras. Pois elas não existem em nenhum dialeto!
Não há uma frase, um texto, um livro que conforte um coração. Não só o coração do mundo, mas em particular o meu coração – a minha dor. A dor de pai, de professor, de jovem. A dor no coração de um irmão.
A saída para a vida que muitos jovens não conseguiram encontrar refletiu-se, em segundos, num silêncio quebrado pelos celulares tocando em seus respectivos bolsos.
Do outro lado da linha eu, você, alguém que queria ouvir aquela palavra que não existe. Nem nunca existirá.
O que sobra de tudo isso não será dito mas precisa ser exercitado por mim. É o mais profundo, sincero, acolhedor e necessário silêncio.

Jacques Miranda

(Como bem lembrou Rubem Alves, em sua obra Ostra Feliz Não Faz Pérola, eu escrevo sempre que algo me incomoda e esse assunto me pegou em cheio. Mas, como disse certa vez Alberto Caeiro, um dos diversos pseudonimos de Fernando Pessoa, “o mundo é feito para olharmos para ele e estarmos de acordo”. Desta forma eu penso, como querer mudar?)

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6 respostas em “Não. Não quero falar

  1. “A saída para a vida que muitos jovens não conseguiram encontrar refletiu-se, em segundos, num silêncio quebrado pelos celulares tocando em seus respectivos bolsos, e do outro lado da linha eu, você, alguém que queria ouvir aquela palavra que não existirá” …..Pois é Jacques, sofro, sofro só em pensar em como deve estar os corações dessas mães, que assim como eu, chega certo horario da madrugada, liga pra saber, como esta, onde esta, com quem esta….etc…. e o medo, o pavor que algo possa acontecer, pois infelismente, no mundo em que vivemos, acontecem coisas que não da pra acreditar que seria possível… e esses jovens “cheios de sonhos”, sairam de suas casas, bonitos, perfumados, cheios de planos, cheios de estratégias e só buscando uma coisa…. ser feliz…. isso realmante não da pra entender…

    • Julio Sorrilha! Obrigado pelos seus comentários. É uma grande verdade o que disse a respeito de levarmos adiante ações visando coibir tragédias como esta, principalmente a busca da justiça. Entretanto, quando me refiro ao silêncio, é o respeito que devemos ter aos mortos. Um grande abraço.

  2. Adorei seu testo, mas com ressalva: “O que sobra de tudo isso não será dito mas precisa ser exercitado por mim. É o mais profundo, sincero, acolhedor e necessário silêncio.”
    Diria: “precisa ser exercitado por mim e por todos, não o SILÊNCIA, e sim as AÇOES”

  3. Reblogged this on Blogue dos Autorese comentado:

    Tragédia para os brasileiros
    A respeito do fatídico episódio no qual uma casa de show incendiou-se acidentalmente quando uma fagulha de uma bomba de artifício alcançou o teto e as chamas espalharam-se rapidamente, fazendo com que mais de 230 pessoas em sua maioria jovens universitários morressem asfixiados, escrevi este texto como forma de indignação ao episódio.
    Este fato ocorreu no estado do Rio Grande do Sul na cidade de Santa Maria no dia 27 de janeiro.

Muito obrigado pela sua leitura.

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